Isiara Caruso - escritora - contos, minicontos, poesia, poetrix - Buenos Aires, Porto Alegre

Crônicas

Brincar/ jogar

Pensar sobre o brincar, os brinquedos e o jogo invariavelmente nos remete às crianças, à infância, pois em geral os adultos não se pensam brincando, é coisa de imaturo de quem não tem responsabilidade. Há uma negação da necessidade de sair dos papéis que o mostram para a sociedade e de vestir fantasias que o levem a outro mundo. O lúdico na maioria das vezes é encarado como uma perda de tempo, nos seminários ou reuniões em que alguém busca introduzir uma brincadeira, uma forma relaxada de iniciá-la, sempre escuta o comentário de colegas – lá vem perda de tempo- e muitos não conseguem participar e entrar na alegria que o jogo propicia.
Parece que ao permanecer aprisionado na seriedade de ser adulto, este corpo desaprende o quanto o jogar e o brincar o fazem feliz e o levam para um tempo descomplicado e singelo do brinquedo e do jogo. E para pensar o brincar “a luz dos novos contextos teletecno- mediáticos, necessitamos revalorizar a autoria de pensamento, a capacidade de estar a sós e a capacidade do brincar (…) desde nosso posicionamento como psicopedagogos também necessitamos nutrir a própria autoria e a permissão para brincar, para descobrir nossa singularidade, nossa diferença, nossa marca e, desde ali abrir espaços de criatividade.” [1]
A linguagem, na leitura e na escrita, se desenvolve não a partir apenas de sons e letras, mas como tudo em educação, tem um portador que é uma pessoa formada de um corpo, de uma vida psíquica, de um organismo, de sentimentos, de sonhos, de fantasias, ânsias e tudo o mais que faz parte de sua vida e onde em cada um as aprendizagens se inscrevem de uma maneira particular, na sua modalidade de aprendizagem[2], na sua forma de desenvolver ferramentas com que estabelece as relações entre o seu saber e a informação nova que chega como conhecimento novo. “a educação, como linguagem (ao nível de uma elite ou da maioria), deve desacomodar o corpo, para que ele fale quanto, quando e como (a até ser), deseja permanecer (fusionalidade), ou partir (autonomia).” [3] Abrir espaços lúdicos na sala de aula favorece que o aluno de um novo significado às suas aprendizagens permitindo-lhe resgatar de sua mochilinha estrutura que tomarão nova forma e o ajudarão a ser mais livres e criativos. “Para ir ao encontro da linguagem do corpo é preciso desenvolver as possibilidades do movimento corporal, que exige a descoberta do próprio corpo, percebendo seus aspectos físicos, psíquico e suas inter-relações”. ’[4]
O prazer do brincar e do jogar desaparece na vida do adulto, perdido na seriedade do dia a dia, no mundo do trabalho. O corpo do adulto resiste a ser e fazer-se feliz. A criança é feliz de corpo inteiro, sabe demonstrar que ama que pode ir além, no jogo de suas fantasias infantis. Entretanto mal começa a crescer e passar pela adolescência, que a leva à vida adulta, parece que ocorre um fenômeno inverso ao da lagarta, que se enche de folhas (come toda uma árvore), tece sua crisálida para poder transformar-se e voar em borboleta. Nós humanos parece que fazemos o caminho inverso. Nascemos borboletas, tecemos nossa crisálida, “enrijecemos o corpo” metemo-nos aí dentro com limites, travas e freios e nos tornamos gordas e pesadas lagartas incapazes de alçar voos. Muitos se tornam rígidos, engessados pelos medos e pudores, resistindo, afastando-se dos jogos do riso, dos jogos do corpo e do amor. O abraço se torna superficial, o olhar temeroso ao olhar do outro. Fecham-se, isolam-se, encasulam-se.
Isiara Mieres Caruso

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[1] Los idiomas del aprendiente, Alícia Fernández
[2] Los idiomas del aprendiente. Alícia Fernández
[3] Luiz Alberto Lorenzetto, Motriz- vol 2 nº2 dezembro/1996
[4] Lola Brikman

Isiara Caruso
17/08/2014