Isiara Caruso - escritora - contos, minicontos, poesia, poetrix - Buenos Aires, Porto Alegre

Crônicas

Mulher



Hoje no dia consagrado às mulheres é costume receber felicitações e que nos ofereçam alguma flor pelas ruas ou restaurantes.
Fernanda Montenegro disse alguma vez em algum lugar “estamos sempre lutando pela nossa liberdade”, quando volto no tempo em minhas memórias recordo a luta das mulheres por esta tão cantada liberdade da qual sempre fomos mantidas a distância.
Podemos constatar através da história que nossa luta é antiga. Por exemplo, no Concilio de Trento, pode-se ler sobre a perfeita casada:
“O estado da mulher em comparação com o marido, é um estado humilde, e é como dote natural das mulheres a mesura e a vergonha […] Como são os homens para o público, assim são as mulheres para o encerramento, e como é deles o falar e sair à luz, assim é delas o encerrar-se e o encobrir-se”.
Inconcebível para os dias de hoje ditar-se algo assim em nosso mundo ocidental. Mas podem estar certos que ainda existem esposas nestas condições.
A este maravilhoso texto ainda se pode complementar com uma frase de Antonio de León Pinelo nos anos 1600, ambos citados por Felipe Pigna em Mujeres tenían que ser. Ed. Planeta, pág. 23:
“O homem tem por gloria ser a imagem de Deus e as mulheres a de serem subordinadas a eles.”
Li também na revista História sobre as lutas de trabalhadoras inglesas pelo direito ao voto. Neste movimento fizeram uma greve de fome. Para submetê-las os homens usavam a força e as obrigavam a comer ou melhor tentavam alimentá-las com funis e mangueiras e desta forma acabarem com a manifestação.
Assim foram feitas muitas conquistas, muitos avanços para nossa convivência neste mundo tão dominado pelo masculino: o trabalho, o salário, a hierarquia, a política, o voto, as possibilidades de voos fora daqueles parâmetros estabelecidos desde sempre como femininos.
Fomos moeda de troca nos impérios e reinos ao redor do mundo e através dos tempos e penso ainda sermos parte deste mercado. Nele nos subjugamos às modas e modos instituídos como forma de “conquista” e a parâmetros considerados como femininos, onde a maioria das mulheres se obriga a encaixar como sapatinho da Cinderela no pé das filhas da madrasta.
Ainda hoje vejo como estamos carentes desta consciência de que somos iguais, independente de gênero, etnia, idioma, ou seja, lá o que coloquem por termo de comparação. Como nos falta esta tal liberdade e a certeza de que podemos enfrentar as pressões, as imposições e os moldes onde nos querem colocar.
Em minha última viagem enquanto aguardava a hora do embarque analisava as pessoas que passavam rumo a seus destinos, como sempre faço. Poucos eram os homens que vestiam os incômodos ternos e gravata, ou sapatos sociais que lhes apertassem os dedos. Abusavam das camisetas, tênis e sapatos confortáveis.
As mulheres! Ah, as mulheres, multidão escravizada pelo próprio olhar e pelo alheio, principalmente mulheres para quem se vestem, não por agradar, mas para competir no ranking da mais moderna, a mais atraente para seus próprios algozes. Algumas se vestem igual ao último edital da moda, que em geral é feito por um homem, para uma mulher que não é de carne e osso, serve apenas para luzir nas passarelas. E aí o festival de roupas inadequadas para o tipo físico da que a está portando com tanto esforço. O mais difícil de aceitar: que se subjuguem porque é moda. Também os sapatos atualmente usados que elevam a estatura em dez ou quinze centímetros, fartamente vistos nas ruas, nos pés de meninas que tomam ônibus para deslocarem-se a seus trabalhos e dão um show equilibrando-se entre uma tênue linha entre a desejada pseuda- elegância e o vexame. Será que não se sentem como fruta em exposição no mercado?
Quem dera tivéssemos a força daquelas mulheres trabalhadoras e lutadoras que instituíram este dia como o dia da mulher e nos conscientizássemos de ser nosso o poder não somente o de seduzir sensualmente, mas o de conquistar pelo intelecto, pela capacidade que temos como seres humanos que somos. Que eu não tivesse que ver mais menininhas e adolescentes se contorcendo ao ritmo de baladas reproduzindo gestos obscenos como se fossem meros objetos de barganha e mulheres adultas que amem ver Big Brothers na TV. Que tenhamos coragem de romper a forma que nos modelou submissas, passivas e obedientes. Quem dera, tivéssemos consciência de que podemos ser parte atuante nessa diferença dentro de nossas casas e na sociedade em que vivemos educando meninas e meninos como pessoas que têm deveres e direitos iguais.
Quem dera!
IsiCaruso
08/03/12

Isiara Caruso
08/03/2016