Isiara Caruso - escritora - contos, minicontos, poesia, poetrix - Buenos Aires, Porto Alegre

Crônicas

Memória como estrutura

Construir-se a partir de um passado.

Coloco-me como aranha que tece sua teia e que nos surpreende em meio ao emaranhado do jardim, cintilando gotas de orvalho ao sol.

Penso esta teia como um caminho de vida, vivido e tecido momento a momento, por vezes, cerzido e ligado a outras teias no desenrolar dos acontecimentos. Parto meu recorrido do início de tudo, ainda útero, ainda aconchego e a levo para fora daí, seio, abraço e... por aí se vai tecendo em fatos e atos, estabelecendo a rede da vida que vivemos nossa memória, desde onde seguem tendo uma existência em suspenso, e por vezes ressurgem tomando novas formas, atravancando o caminho, ou até mesmo impedindo o passo, em forma de medos escondidos. Estes atos e fatos estão tecidos, atados, dando a cada dia novas formas a nossa biografia, que nos retrata, nos mostra ou nos esconde. São as estruturas que suportam o novo, caminho do novo dia, com a certeza de que nos pomos em risco, mas que temos uma base ancestral, gravada, que nos mantém únicos, embora sempre em movimento e criação e nos oferece a capacidade de nos modificarmos ao mesmo tempo em que mantemos a nossa essência, que nos garante que este tempo passado estará aí tecido, e nos capacita o direito à autoria ímpar e estruturalmente nossa.

Nossa memória é incrivelmente minuciosa, ela se estrutura nas rupturas, nas marcas que aí se vão gravando através das cicatrizes que ficam atrás das mágoas, depois das agressões, das carícias, dos fantasmas que assombram o olhar, o escrever, o falar, a escuta, a atenção e o controle do corpo, somatizamos.

O prazer do brincar e do jogar desaparece na vida do adulto, perdido na seriedade do dia a dia, no mundo do trabalho. O corpo do adulto resiste a ser e fazer-se feliz.

A criança é feliz de corpo inteiro, sabe demonstrar que ama, que pode ir além no jogo de suas fantasias infantís. Entretanto mal começa a crescer e ao passar pela adolescência, que a leva à vida adulta, parece que ocorre um fenômeno inverso ao da lagarta.

A lagarta se enche de folhas (come toda uma árvore), tece sua crisálida para poder transformar-se e voar em borboleta. Nós humanos fazemos o caminho inverso. Nascemos borboletas, tecemos nossa crisálida, “enrijecemos o corpo” metemo-nos aí dentro com limites, travas e freios e nos tornamos gordas e pesadas lagartas incapazes de alçar vôos.

Muitos se tornam rígidos, engessados pelos medos e pudores, resistindo, afastando-se dos jogos do riso, dos jogos do corpo e do amor. O abraço se torna superficial, o olhar temeroso ao olhar do outro.

Fecham-se, isolam-se, encasulam-se. Mostram-se memória. Morrem.

Isiara Mieres Caruso 29/10/2006

Isiara Caruso
05/07/2016