Isiara Caruso - escritora - contos, minicontos, poesia, poetrix - Buenos Aires, Porto Alegre

Contos

A GAROTA DE ONTEM


12/10/2013 • por isicaruso • em Contos. •

Há dias a imagem do rosto de Anelise não me deixa. Sabe aquela coisa de sexto sentido que temos? Pois é, andava gritando-me aos ouvidos.
Quando a encontrei no sábado na casa de Glória, fiquei preocupada, ela estava pálida, mais magra, olheiras fundas. Logo pensei que algo passara, pois sempre foi uma menina alegre, espontânea e as coisas boas sempre começavam uma conversa nova.
Cheguei como sempre mais tarde que todas.
Glória abre a porta e faz o comentário de sempre:
- Ei-la que chega, antes tarde do que nunca! Bom que chegaste tava com vontade de ti!
Abraço forte de quase tirar o ar, daqueles que parece querer prender as pessoas para não se irem. Abraçamo-nos todas e gritamos nosso juramento:
- “Com dois eu te vejo! Com cinco eu te ato! Amigas de fato!”.
Glória e Marta vão buscar o vinho e a tábua de frios na cozinha.
Deixa aclarar: somos um grupo que se reúne sempre aos sábados à tarde desde que éramos menininhas de 11, 12 anos. Sempre era uma alegria reunir-nos e passar a limpo as coisas da semana, desde um incidente até as coisas mais confidenciais que tínhamos vivido, e somente nós o saberíamos; Eu, Anelise, Glória e Marta.
Chego tarde, pois saio do trabalho e corro para o local do encontro, mas sempre tenho que deixar tudo em ordem para segunda-feira. Sou secretária de uma casa de modas e a designer é tri exigente com horários.
Olho para Ane e ela está como hipnotizada junto à grande vidraça que mostra toda a cidade. Seus olhos não desgrudavam do horizonte e celular dançava de uma mão a outra. Com certeza algo ia mal.
Glória nos chama para começarmos nosso bate-papo regado a novidades de todas e um bom vinho, porque ninguém é de ferro.
- Gente, que silêncio é este, vocês sempre tão falantes? Marta, Ane, Rox…?
Não havia dito, mas meu nome é Roxette. Minha mãe é fã da banda e aqui estou eu, sou Rox.
Olho para Gloria e aponto a Ane que parecia um zumbi, ali, parada em frente à janela.
Vamos até lá as três e a abraçamos.
Ane desata num choro compulsivo, como se não pudesse chorar a muito tempo. Seu coração parecia que ia explodir. Tremia toda. A dor que trazia dentro não permitia que pronunciasse palavra alguma.
Ela necessitava como nunca de nós.
Sentamos todas juntas nas almofadas do canto da sala como quando éramos meninas e rolávamos dando risadas. Hoje chorávamos juntas. Ficamos assim até que os soluços das quatro foram sessando e ficasse apenas a respiração pausada, calma.
O tempo passou e o sol já se despedia num vermelho suave dos poentes do outono envolto num amarelo pálido. A luz tênue através da vidraça nos banhava cálida.
Marta levanta e leva a mesinha, copos, vinho e picada para perto, quando Ane já se acalmava e começava a dizer coisas meio sem sentido.
- Como alguém pode estar tão perto e tão longe da gente? Não entendo nada. Tenho um fogo que me devora as entranhas. Não sei mais nada. Nada! Nada! – Num momento estava e depois a porta se fecha e somente o silêncio. Como, como, como meu Deus? Não entendo nada!
Nos olhamos e na cumplicidade de olhares sentimos que algo havia passado com Jonas.
- Vamos ver Aninha, conta com calma para que possamos te ajudar. – digo sussurrando.
- Toma um pouco de vinho, que, aliás, está ótimo. – diz Marta- O néctar dos deuses faz milagres!
Marta serve o vinho ela bebe quase sem sentir seu sabor.
Olhos vermelhos, inchados, quase desorbitados. O azul suave que tanto a marca estava estranho, navegava entre um violeta e um verde suave.
Ana começa a falar pausado.
- Eu era tudo para ele e ele tudo para mim. Até que começou a deixar de ser aquele menino que conheci. Não entendo mais nada. Tudo que entendia por certo deixou de ser, as coisas se inverteram gente! Não pode ser! Ele não vê que estou sofrendo?
Levanta e vai até a janela!
Volta-se rápido.
- Nem uma palavra! Nem um e-mail! Não me liga! Por quê? Por quê? Por quê?
- Passei a ser passado para ele! Sou a garota de ontem! Não estou mais!
Esbraveja Ane enlouquecida pela sala.
Corremos as três e a abraçamos outra vez.
Ane, sentada entre nós, murmura:
- Ele simplesmente juntou tudo que possuía, arrumou a mala e partiu. Disse que iria para muito longe, do outro lado do oceano e que não chorasse, nem dissesse nada. Que o nosso era passado!- grita- PODE? COMO? COMO? COMO?- quase sem voz diz- Me tornei passado. Sou a garota de ontem!
Seu rosto se contorce e ela chora copiosamente! Choramos todas.
Em seu coração ela sentia que ele iria voltar, tanto que o esperava olhando ao longe pela janela. A saudade contida durante todos estes dias na solidão do seu apartamento buscando respostas que não terá a fazem imaginar as frases que ele dirá ao voltar. Ela, a garota de ontem.
Nós quatro adormecemos abraçadas como fazíamos antes quando necessitavam uma das outras. Tínhamos que fazê-la voltar à razão! Ela nossa amiga de sempre. Ainda que em seu coração ela seja a garota do ontem. Esta marca será difícil de apagar.
A garota de ontem! Do seu amor de sempre.
Decidimos ficar na casa da Glória todo fim de semana, afinal nossa amiga estava necessitando de nós.
Na manhã seguinte acordamos por volta das nove horas e Ane ainda ficou na cama mais um pouco, a havíamos feito dormir com umas gotas de água de melissa e chazinho morno.
Ela levantou um pouco mais disposta, mas gastou o dia dando voltas em torno do seu assunto do momento.
Custo dizer que as pessoas que sofrem por amor, sofrem mais por se sentirem vítimas sem sequer pensar o quanto tiveram de participação no fato. Mas fazer o quê, ninguém sente assim na hora H.
Ane desperta:
- Que horas são? Dormi como um urso!
- Dez e meia! – diz Glória entrando com uma bandeja no quarto onde ela dormia.
Levanta e vai até a sala onde estamos, olha a janela e se admira:
- Que céu lindo e azul!
Olha a TV e nos assusta, pois ela vê entre as pessoas da imagem o rosto de Jonas.
- O que ele está fazendo aí?
-Quem, menina? Não vejo ninguém conhecido. – diz Marta.
Passamos o dia tentando fazê-la entrar em razão, mas ela vagou todo o dia entre o telefone, onde deixava mensagens, ainda que retornasse. Ora tomando livros da estante e tentando ler, mas seu pensamento a levava para junto da janela.
- Me sinto tão pequena, insignificante!
- Não gostou de nenhum livro Aninha? – pergunta Glória.
- Veja este é o hit do momento: O silêncio das montanhas é muito interessante, estou lendo.
Mas Ane vai direto para o de Kristin Hannah. O título a atraiu como um imã a um prego. “Quando você voltar”, mostra a capa sugestiva. Quase cai nas almofadas com o livro nas mãos. Folheia quase aleatoriamente e diz:
- Que história tão pobre!

IsiCaruso
Inspirado na música: The girl from yesterda

Isiara Caruso
29/07/2016