Isiara Caruso - escritora - contos, minicontos, poesia, poetrix - Buenos Aires, Porto Alegre

Crônicas

A CAMINHADA

A estrada se perde no horizonte. As curvas cortam a retidão do leito da rodovia que cisma em seguir rumo ao infinito em busca de mais um momento da vida que escorre no relógio do universo e que, incessante marca cada minuto do tudo acontecer.

As colinas espiam atrás de cada curva desenhando a assimetria da paisagem. Um rio passa murmurando sob a ponte que rasga a rocha e une os dois lados das margens. O sol escalda o solo, e dá um brilho majestoso a tudo que toca. Após a curva o fascinante brilho e colorido das pedras semipreciosas do lugar dão um toque especial à paisagem. As rochas haviam sido violadas e seu interior estava exposto diante dos olhos de todos que ali estávamos em busca da beleza. As vísceras da Terra ardiam refletindo o dourado dos raios do sol. Meu olhar se perdeu entre estes brilhos e pude ver neles a grandeza de Deus.

Estamos na Chapada Diamantina, esplendorosa, energizante.
A emoção arrepia o corpo, faz a lágrima correr solta do olhar e molhar o papel onde deslizam palavras que falam do silêncio que ensurdece. A sinfonia do silêncio solta seus acordes entre as folhas das árvores, no murmurar sutil das asas da abelha, que carrega em suas patinhas o pólen das flores, que perfumam o ar e, no sussurrar da água que corre e se derrama na cachoeira magnífica.
É a melodia do Universo mostrando ao homem o quanto a paz é vida que brota por todos os seres.

No fim da trilha as ruínas de um tempo quando diamantes eram garimpados. Aquelas paredes escondem as falas de homens que seguiram atrás do sonho e do brilho das pedras. Guardam histórias de vidas que se abrigaram ali, para sonhar com o poder, sem perceber que o poder estava derramado aos seus pés. O poder da natureza que rege o nascer do sol, o brotar das pequenas ervas e das grandes árvores, o respirar das rochas que se transformam em diamantes e pedras cintilantes, o manto da Lua que prateia a água do rio. E as pegadas deixadas nas rochas ainda estão a esperar para contar a história que se derramou durante séculos nas encostas daquelas montanhas.

Neste momento em que tudo isto passa diante de meus olhos reflito sobre a minha pequenez, e a imensa sede que temos, nós seres humanos, e a desenfreada vontade de conquistar poder, para em nome de uma felicidade desejada destruirmos a nossa própria casa, a Terra, a nossa própria vida e a vida de nossos semelhantes.

Isiara Mieres Caruso

Isiara Mieres Caruso
01/10/2017